Autoras do Resumo: Ana Lívia de Souza Vale, Geovana de Souza Vale
Um dos primeiros esforços da humanidade para compreender e utilizar a natureza foi através das plantas medicinais, as quais foram de extrema importância para a evolução e história da humanidade já que, além de possuírem diferentes propriedades capazes de ajudar na cura de doenças também estavam presentes em rituais religiosos de diversos povos e culturas, principalmente na Antiguidade e Idade média.
Esse período foi marcado pelo controle e limitação da Igreja sobre o conhecimento intelectual, pois a mesma tinha total influência sobre a forma de pensar e agir da população, cujo objetivo primário era Deus, e ao olhar para a natureza não buscava compreendê-la, mas sim encontrar sinais do divino.
Assim, uma vez que o uso de plantas medicinais poderia alterar o estado físico e mental daqueles que as consumiam, a prática passou a ser vista como inimiga da ideologia cristã, já que na época ainda não era possível explicar a causa desses efeitos, juntamente de suas praticantes — em grande maioria mulheres — que foram consideradas bruxas e perseguidas por serem vistas como uma ameaça para a sociedade.
“A medicina estava limitada pela ideia de que o doente é um pecador cuja cura residia na atuação da Igreja (orações, sacramentos, exorcismos, etc)” Franco Junior (2001 p.143)
No passado, afazeres como a colheita de ervas e o cuidado com as hortas eram vistos em grande parte como tarefas femininas, desse modo o sexo feminino acabou acumulando conhecimentos diversos para o uso de plantas silvestres não apenas no preparo de alimentos, mas também em cuidados médicos passados de geração em geração por curandeiras e feiticeiras.
O desejo de resolver problemas além da saúde — amores, riquezas ou prazeres — fez com que buscassem conhecimento dos efeitos psicotrópicos dos vegetais, e o usavam na produção de poções, que continham drogas capazes de alterar o físico e mental.
Logo, podemos observar que era comum o uso de substâncias alucinógenas e sedativas nas poções, o que na época eram associados a poderes sobrenaturais, mas hoje, depois de anos de desenvolvimento científico, conseguimos explicar como sendo resultado da mistura de diferentes propriedades químicas das plantas.
Muitos detalhes sobre o preparo de tais poções foram perdidos durante a história, mas é possível investigar as plantas usadas como base e compreender seus efeitos.
A muito falada e conhecida "poção do amor" resultava em efeitos afrodisíacos como elevação do ânimo, euforia e alucinações. Sua mistura continha substâncias como a Escopolamina, Atropina e Hiosciamina, presentes em plantas como a Beladona (Atropa belladonna), meimendro ou belenho (Hyosciamus niger) e mandrágora (Mandragora officinarum). Em grande dose, provocava estimulação seguida de depressão, e em pequena dose diminuição salivar, brônquica e a sudorese.
O famoso estereótipo de bruxas em vassouras pode ser explicado por substâncias que após serem passadas em cabos de vassouras e ao entrar em contato com as mucosas da pele geravam alucinações. Também há indícios de algumas mulheres que utilizavam massagens e ervas misteriosas para "voar" em encontro à satanás e outros demônios. Relatos de supostas poções revelam presença de drogas psicotrópicas alucinógenas capazes de transmitir visões incríveis, a impressão de voo e outras sensações comparáveis à orgasmos.
Assim, o uso dessas ervas nas práticas das feiticeiras contribuiu para a ideia de opressão e desconfiança causada pelo medo que seus conhecimentos provocavam, fazendo com que muitos acreditassem que junto com o conhecimento médico elas também possuíam a capacidade de manipular humanos, a natureza e até o sobrenatural, o que foi visto como algo que servia ao mal e por isso deveria ser erradicado.
Dessa forma, instaurou-se uma figura de feiticeiras adoradoras do demônio e praticantes de atos diabólicos, sendo assim, bruxas. Essa imagem fez com que a igreja perseguisse todas praticantes de feitiçaria e passou a culpá-las por acontecimentos negativos — como crises epidêmicas — gerando pânico e histeria entre a população.
No século XIII a Igreja cria o Tribunal do Santo Ofício — mais conhecido como inquisição — para impedir atos que iam contra sua crença, perseguindo e punindo seus praticantes. Características como marcas de nascença, pintas, verrugas, cicatrizes, aparência desagradável, deficiência, idade avançada ou beleza exuberante eram motivos passíveis a denúncias por bruxaria. Cerca de 100.000 mulheres, homens e crianças teriam sido mortos por tais acusações, em sua maioria pela fogueira ou estrangulamento.
Portanto, é importante darmos os devidos créditos a essas mulheres que foram perseguidas e mortas por terem ajudado a manter vivos importantes conhecimentos adquiridos ao longo de séculos sobre as plantas medicinais, que com o avanço científico tiveram suas propriedades reconhecidas e avançaram para a atual fitoterapia.
Desse modo auxiliando no surgimento da medicina alopática moderna, que consiste em tratar as doenças por meio de medicamentos que provocam uma reação contrária aos sintomas para assim reduzi-los ou neutralizá-los, sendo assim a forma de tratamento mais conhecida da medicina tradicional estando presente em cápsulas, comprimidos, xaropes, gotas, cremes etc.
Textos base (para saber mais):
UFJF, Fitoterapia. Programa de Plantas Medicinais e Terapias Não-convencionais. Link: https://www.ufjf.br/proplamed/atividades/fitoterapia/
Morais,
Guilherme Barbosa; Moura, João Paulo Carvalho; Silva, Tatyara Monteiro
da. Do que eram feitas as poções das bruxas na Idade Média? Guia dos
Entusiastas da Ciência. 2021. Link: https://gec.proec.ufabc.edu.br/ciencia-ao-redor/do-que-eram-feitas-as-pocoes-das-bruxas-na-idade-media/
Sterza,
Valentino. Plantas mágicas no Medievo: mulheres, magia e Igreja. UFPB,
Centro de Educação. Graduação em Ciências da Religião. 2019. Link: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/16652/1/VS31102019.pdf
Pissurno, Fernanda Paixão. Caça às bruxas. InfoEscola. Link: https://www.infoescola.com/historia/caca-as-bruxas/

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